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By on 14 de novembro de 2016

RESENHA: VOZES DE TCHERNÓBIL – SVETLANA ALEKSIÉVITCH. Companhia das Letras. 2016. 383 pgs. Avaliação 5/5.

 

PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA 2015

 

Ouçam todos!

Os animais estão dispensados. Os seres humanos, não.

Vinte anos já se passaram, mas nunca será tarde para escutar as Vozes de Tchernóbil. A não ser, é claro, que seja tarde demais.

 

“Lá não passava um dia sem que eu pensasse na morte… Sempre saía de casa com roupa limpa, com a blusa, a saia e a roupa de baixo lavada. E se de repente me matam? Agora eu caminho sozinha pelo bosque e não tenho medo de ninguém. Não há uma só pessoa. Vou caminhando e me pergunto: será que aquilo aconteceu mesmo comigo? Às vezes você encontra algum caçador com arma, cachorro e dosímetro. Também é gente armada, mas é diferente, não perseguem pessoas. Se escuto um tiro, sei que estão caçando aves ou lebres. Por isso não sinto medo aqui… não posso ter medo da terra, da água… tenho medo do homem… Por cem dólares é possível comprar um fuzil no mercado…” (a mãe: monólogo sobre um antigo terror)

 

Era mais fácil falar sobre a guerra do que falar sobre o desastre nuclear. Todos os relatos apontam para o fato de que não se pode temer o invisível. É simples ter medo da arma, mas a radiação não se vê, não se ouve, tão pouco se identifica-lhe um cheiro; é até bela, dizem alguns.

 

A jornalista Svetlana Aleksiévitch imortalizou os relatos das pessoas envolvidas no desastre nuclear de Tchernóbil (1986) emprestando à elas sua escrita, de uma forma inusitada para os livros: transcrevendo-os.

 

Não é um romance, não é uma ficção baseada em fatos reais. É a própria realidade, nua e crua, revelada pela narrativa de cada personagem, da simplicidade do camponês ao entendimento do engenheiro; da pureza da criança ao meticuloso político.

 

“Absinto em ucraniano é ‘Tchernóbil’. Pelas palavras nos foi dado um sinal. Mas o homem é vaidoso, ruim e pequeno” (pg. 99)

 

Nas primeiras páginas somos chocados pelos relatos sobre os bombeiros que foram conter o incêndio no reator da usina nuclear. Sem saber que se tratava de fogo no próprio reator, foram com as roupas do corpo, sem qualquer tipo de proteção. Morreram semanas depois.

 

A radiação estava espalhada por muitos lugares, levada pelo vento, pela chuva, contaminando a terra e seus frutos. Os cientistas alertavam, mas as pessoas se recusavam a deixar seus lares, suas terras, tudo o que tinham, por causa de um mal que não podiam ver e não queriam crer.

 

“Não era um incêndio comum, era uma luz fosforecente. Era lindo. Se esquecermos todo o resto, era muito bonito(…) Não sabíamos que a morte pode ser tão bela.” (pg. 244)

 

A população confiava cegamente no governo, e ele dizia, na voz de Gorbatchóv: “foram tomadas as medidas urgentes”. Até mesmo engenheiros, físicos, químicos, que viram uma sucessão de erros sendo cometidos nos procedimentos de contenção da explosão radiativa. Eles estavam habituados a acreditar, eram orgulhosos dos seus feitos como nação, e o Partido ordenava sua disciplina comunista inserindo a fé nele próprio, se forma que o trabalhador se submeteu à zona radiativa, não por medo de perder a carteira trabalhista, mas pelas suas próprias convicções, por ajudar a pátria, sentindo-se herói. A derrocada dessa fé levou muitas pessoas ao enfarto e ao suicídio.

 

Outros tantos foram à zona pela promessa financeira, quanto mais próximos do reator trabalhassem, mais dinheiro seria mandado às suas famílias, ou seja, morreriam e estavam de acordo para que suas famílias ficassem confortáveis. Morreram, porém, na mentira, pois o governo não cumpriu os acordos realizados, dando as costas para o sofrimento do próprio povo. Alguns chegaram a afirmar que não foi apenas o reator que explodiu, mas todo o sistema anterior de valores.

 

É um livro muito triste, por vezes precisei interromper a leitura para respirar, secar as lágrimas, conter a angústia e a indignação. Mas sua leitura é fundamental sob o ponto de vista histórico e humanitário. Ver a ferida aberta é desagradável, mas pode ser eficiente para evitar o próximo machucado.

 

Ouçam essas vozes experientes, olhem com cautela para o nosso futuro.

 

Por Cilene Resende

 

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2 Comments
  1. Responder

    Patrícia

    17 de novembro de 2016

    Nossa ! Que livro hein? Perdi o fôlego só de ler esta resenha. “Não é um romance, não é uma ficção baseada em fatos reais. É queima 48 horas a própria realidade, nua e crua, revelada pela narrativa de cada personagem,” Deve ser um arrepio a cada página,
    Será que tenho coragem de ler?
    Beijos
    Paty leiturasplus.blogspot.com

    • Responder

      Cilene Resende

      1 de dezembro de 2016

      Olha, vale demaissss!

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CILENE RESENDE

Meu nome é Cilene Resende, 31 anos, sou de Maringá-PR. Ler não se trata de uma simples paixão na minha vida; ler é um dos meus vícios mais prazerosos. Seja bem-vindo ao Meu Vício Literário.