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Partiu vida (e não vida) loka

By on 15 de setembro de 2016

RESENHA: O PRIMEIRO VAMPIRO – EWERTON CARVALHO. Ficção brasileira. Editora Novo Século (Coleção Talentos da Literatura Brasileira). 2015. 446 pgs. Avaliação 3/5.

Ohrí só queria parar de sofrer e sentir dor. Queria ter filhos sem depender dos Deuses, e que eles não sentissem dor. (pg. 333)

O Parto e a Partida é o título que nomeia o primeiro dos setenta e seis capítulos da longa jornada de Ohrí. Ele não escolheu a estrada, o destino decidiu por ele.

Sua mãe morre no momento em que lhe dá a vida. A revolta de seu pai com a viuvez precoce recai sobre a parteira, a quem ele aprisiona e obrigada a cuidar do seu filho. E nessas páginas iniciais você vai identificar que não, não é uma narrativa leve.

E a parteira não é somente uma bela jovem, mas uma poderosa feiticeira que não estava ali por acaso. Com ela, Ohrí aprende sobre ervas e poções que curam e que matam.

Antes dos dez anos de idade nosso protagonista já teve que lidar com mortes e desaparecimentos. Um encontro com ciganos mostra-se uma coisa boa, mas que durou pouco), pois, logo em seguida, conheceu a escravidão. Porém, como uma esponja, ele absorve todos os conhecimentos com os quais tem contato como línguas, costumes, credos, lutas, poesia, música…  o que é o amor e não poder vivê-lo.

Tragédia pouca é bobagem! Sempre quis usar esse jargão numa vibe realmente adequada!

Contada em terceira pessoa por um narrador onisciente essa história traz uma grande quantidade de informações mitológicas, de rituais, cerimoniais, seres e lendas. Há que se ter em conta que a época em que se situam os acontecimentos é a medieval, também conhecida como Idade das Trevas. (muito apropriado)

Após ser libertado, ainda na adolescência, encontra um velho habilidoso e intrigante, que se torna uma espécie de mentor, e o leva para terras celtas, onde a magia e a realidade convivem sem limites visíveis.

Khoran, o velho, leva o protagonista até as terras chamadas Hy Breasil (oi? é! O Paraíso que leva um nome que não lhe é estranho… mas google lá que a história de Hy Breasil é muito interessante!).

Rituais esquisitos à parte, pense num lugar onde eu queria estar! Lindos campos, rios e mares, festas legais…Perigoso surgir um unicórnio galopante à porta da sua casa… mentira! Mas cuidado com as banshees, que são bonitinhas, mas ordinárias.

Nessa terra druída, quando Ohrí acredita estar vivendo a plenitude da felicidade, tendo sido aceito na comunidade, casado, à espera de um filho, seu mundo desmorona mais uma vez, dando início a uma nova partida.

Na busca de apaziguar suas dores e encontrar paz, ele encontra a guerra – As Cruzadas, conhece o Rei Ricardo e luta ao seu lado. Acompanha os dramas legítimos e também observa os soldados corruptos.

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“Todo mundo na vida perdeu algo. Temos de aceitar as coisas que não podem ser mudadas, ou levaremos muita mágoa na alma. As cicatrizes devem lembrar o aprendizado (…) É mais fácil seguir em frente olhando adiante do que para trás.” (Khoran, pg. 136).

Armadilhas, traições das pessoas que Ohrí mais admirava, efêmeras alegrias e novas perdas fazem com que sua jornada pareça ser amaldiçoada, mas a maldição mesmo ainda estaria por vir.

Demora até chegar a parte em que aparecem vampiros, mas eles aparecem, por causa de Ohrí, tão sofrido e mais uma vez enganado.

Lua

Um exército de vampiros é formado. Uma nova ordem se inicia.

O alho, a cruz, a água benta… o espelho, a luz do dia, a comida. O sangue, o frenesi, o desespero. Do arrependimento, passando pela revolta, à resignação, as justificativas e detalhes do mito do vampiro vão sendo apresentados e desvendados.

Por fim, Ohrí desvenda suas origens e com elas o resultado da sua existência. Assim como não teve domínio do seu nome, sua pronúncia e o que ele acabou por representar, embora queira combater o mal, acaba sendo sinônimo dele.

A escrita é cuidadosa, formal o quanto basta para narrar a época da qual ela trata, mas sem maiores dificuldades, ela flui num ritmo adequado. O que pode emperrar um pouco a leitura são os nomes dos personagens, que são muito complicados e acabei por não conseguindo guardar quase nenhum deles, com exceção de Ohrí, Khoran e Baba.

A divisão das 446 páginas em 76 capítulos às vezes é exagerada se levado em consideração que há capítulos que não completam sequer uma página. No entanto, há leitores que adoram porque te permite dizer “vou ler só mais um capítulo” e acabar lendo mais uns 10. (Pausa pra confissão… Ok!)

Gostei muito da riqueza de detalhes, embora alguns rituais pudessem ter ficado de fora (são nojentos, eca!). Fica nítido que houve uma grande pesquisa para essa história ser contada, o que me levou a pesquisar algumas coisas que me deixaram curiosa, até porque eu adoro mitologia e o Google é um velho amigo.

Então, por que não avaliei com 5 estrelas? Porque achei que demorou muito pra entrar na história central, que é o surgimento do vampirismo. Quando esse mote finalmente é desenvolvido ele acontece com um excesso de informações. Destoando do ritmo anterior que era até lento. A partir de então, as explicações e os acontecimentos te levam numa correnteza violenta de explicações, personagens e rituais ainda mais estranhos, enquanto minha expectativa era de apreciar com calma o processo de transformação e as mudanças que o sucedem.

Mas gente, tem ciganos, duques, fadas, bruxas, Druídas, Reis, Deuses, portanto valem, sim, as 3 estrelas por ser uma ficção, aventura, fantasia, nacional, muito melhor que muitos internacionais que entopem as livrarias de mais do mesmo.

 

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2 Comments
  1. Responder

    Paty

    15 de setembro de 2016

    Meu Deus, fiquei com medo lendo a resenha, imagine lendo a obra. Sou fã de pessoinhas que lê e apreciem a literatura fantástica… bom trabalhar a imaginação fora da nossa realidade.
    Parabéns Cy, resenha impecável, sincera, sem deixar a sutileza –> o que para mim é primordial. A sua última frase da resenha, lembrei do livro do clube. Criamos tanta expectativas do anjos, faz tanto sucesso nas livrarias e saímos todos traumatizados kkkkk
    Beijos. Paty leiturasplus.blogspot.com

    • Responder

      Cilene Resende

      21 de setembro de 2016

      Obrigada Paty.

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CILENE RESENDE

Meu nome é Cilene Resende, 31 anos, sou de Maringá-PR. Ler não se trata de uma simples paixão na minha vida; ler é um dos meus vícios mais prazerosos. Seja bem-vindo ao Meu Vício Literário.