#TAG Dicas Parcerias Resenhas

Cala a boca

By on 4 de março de 2017

RESENHA #LVA: RIBAMAR – JOSÉ CASTELLO. ED. BERTRAND. BRASIL 2010, 280 p.

 

“Cala a Boca”, uma canção de ninar; “Carta ao Pai”, de Kafka; peixes, que morrem pelo boca, por asfixia; são alguns dos paralelos que o autor utilizou nessa obra para exprimir a angústia do protagonista, José, para externar suas frustrações com o difícil relacionamento que tinha com seu pai.

 

“Espanta-me que veja em mim um peixe, que é escorregadio e indecifrável. Peixes, você sabe, pai, morrem pela boca, asfixiados pelas palavras que não conseguem dizer.” (pg. 34)

 

Passeando no tempo entre as lembranças familiares, estando o pai, Ribamar, já morto, José tenta reconstituir a figura do progenitor na ânsia de reconciliar-se com ele, dessa forma, eliminando o fantasma de seus desencontros. Essa história não nos deixa fugir de uma determinada reflexão: todo pai já foi um filho e todo filho tem no seu íntimo, um pai em potencial e todo o medo que isso representa.

 

“Ribamar” é uma sucessão de quedas seguidas de avanços, assim a narrativa vai seguindo como qual a vida, com seus golpes – cair; refletir; levantar.

 

O ponto chave do romance é o telefonema de um amigo do protagonista que certa vez encontrou o livro “Carta ao Pai – Kafka” em um sebo, constando uma dedicatória dele ao pai Ribamar. O livro estava praticamente intacto, por isso a dúvida que paira sobre José durante a maior parte do tempo é: será que o pai chegou a lê-lo?

 

Acontece que “Carta ao Pai” é considerado “o livro das acusações”, o filho que denuncia, reclama, desabafa tudo que é possível se dirigindo ao pai, e a coragem do autor de Ribamar aqui reside, na exposição da faceta autobiográfica que embasou essa obra de ficção.

 

Ao final de 98 capítulos curtos, intitulados cada qual com um trecho da partitura de “Cala a Boca”, “(…) é hora de fechar as malas, pagar as contas e voltar para casa. Enrolar as frases, dobrar as esperanças, deixar para trás as ilusões.” (pg.278) E, por fim, enviar a carta “a você Ribamar, meu pai”, cujo endereço do destinatário é qualquer um.

LVA - Ribamar

 


Sobre autor, premiação e opinião:

José Castello, carioca radicado em Curitiba há mais de 20 anos, é jornalista experiente, tendo passado por muitos grandes veículos de comunicação como as revistas Veja e Isto É, e especialmente na área literária, atuou como colunista e repórter literário no jornal O Estado de São Paulo, colunista do O Globo, crítico literário nas revistas Bravo!, Época, Valor Econômico, Rascunho, entre outras.

Já detentor de um prêmio Jabuti pela biografia Vinicius de Moraes: O Poeta da Paixão, carregava também um sermão que levou de Clarice Lispector: “você é um homem medroso, e com medo ninguém escreve.”

Com Ribamar, Castello perdeu o medo e mostrou suas feridas e sua coragem. Essa vitória foi premiada com o Jabuti de melhor romance nacional do ano de 2010.

Há nessa obra um quê de inovação técnica, essa mistura de ficção e autobiografia que não era ainda muito explorada por aqui, a redação atemporal e não linear e por vezes até poética.

O que não me pica é o mote, a temática, muito provavelmente por uma questão de gênero: uma mulher jamais entenderá, em sua própria dor, os conceitos do complexo de édipo. (mas quem sabe, não venha por aí uma Carta à mãe.)

Por Cilene Resende

bannaer LVA

TAGS
RELATED POSTS
rezadeira-carlos-rodrigo
Pode Começar A Rezar

8 de março de 2017

bannaer LVA
#LVA Literatura Verde e Amarela

23 de fevereiro de 2017

Complete a frase:

29 de novembro de 2016

LEAVE A COMMENT

CILENE RESENDE

Meu nome é Cilene Resende, 31 anos, sou de Maringá-PR. Ler não se trata de uma simples paixão na minha vida; ler é um dos meus vícios mais prazerosos. Seja bem-vindo ao Meu Vício Literário.