Notícias Rock N Roll

Like a Rolling Stone

By on 13 de outubro de 2016

and the Oscar  Prêmio Nobel de Literatura 2016 vai para BOB DYLAN !!

Jamais passou pela minha cabeça… não porque ele seja músico e desde 1993 não premiavam um músico; não porque ele já figurava nas listas de apostas há anos a fio sem levar (like a Leo DiCaprio); mas porque pensei, como a própria Academia havia insinuado, que demorariam a premiar americanos.

Enfim, eu torcia também por Philip Roth e mantenho a esperança para o ano que vem.

O que importa é comemorar a vitória de Dylan, que é sensacional!!!

Por isso trago aqui uma reportagem da revista Rolling Stone Brasil, que eu adoro, e estava guardada na minha Barra de favoritos desde 2011 (seria um sinal??)

Enjoy!!!

“As Maiores Canções de Bob Dylan
No ano em que celebramos o 70º aniversário de Bob Dylan, pedimos aos maiores experts do em sua obra que escolhessem suas melhores canções.

As Maiores Canções de Bob Dylan
por JOHN PARELES
Qualquer tipo de pessoa é capaz de escrever uma grande canção. Mas foi preciso que Bob Dylan surgisse para reformular nosso conceito do que uma grande canção pode ser. Agora, vale perguntar: quais são os elementos que distinguem os melhores trabalhos de Dylan? Seu catálogo é impressionante tanto em tamanho quanto em ambição. Contém faixas que são obras-primas e algumas descartáveis: narrativas, protestos, romances, sarcasmo, diários de viagem, alertas, comédias, tragédias e aquelas canções oraculares não lineares – como “Highway 61 Revisited” e “Ain’t Talkin’” – que há muito tempo exigiram seu próprio adjetivo (“dylanesco”). O único modo de julgá-las, ou debatê-las, é seguindo as guias que Dylan inventou para si mesmo. Antes de Dylan, havia critérios amplos de aceitação do que poderia ser considerada uma grande canção. Um clássico pop na era da Tin Pan Alley precisava ter uma melodia animada e fácil de cantar; seus versos tinham que contar uma história ou destilar um sentimento universal. Precisava ser adaptável a vários tempos e tratamentos diferentes: crooners, banda de swing, Broadway. Mas as músicas de Dylan não obedeciam a estas amenidades. “Subterranean Homesick Blues” trota até o final sobre apenas três acordes e uma melodia que é mais provocação do que música, verso espalhado atrás de verso. E as letras… bem, elas até rimam, mas simplesmente não fazem sentido, ao menos não diretamente. As canções de Dylan não englobam uma ideia meticulosa – elas contêm uma multitude delas: profecia e nonsense, moralidade e absurdo, apocalipse e intimidade. Ele tinha insights psicológicos penetrantes, aforismos profundos e frases de efeito sagazes; frases que eram como armas, e outras que eram como bênçãos. Dylan também forçou o mundo a aceitar a fusão das funções de cantor e compositor, mesmo que o cantor em questão tenha o tipo de voz que nem sempre é considerado bonito. Lá atrás, no início dos anos 60, quando a voz de Dylan era considerada abrasiva demais para os ouvidos acostumados ao pop, parecia inimaginável que gerações futuras iriam se afeiçoar e imitar seu rosnado embromado e corrosivo, suas ironias e seus momentos de doçura e raiva inesperada. Depois do tratamento de choque dado por Dylan, a elegância dos velhos standards passou a soar certinha demais. Apesar de ter sido considerado desafinado, Dylan entende de melodia. Embora tenha chegado a Nova York com os vícios de um cantor folk, Dylan começou sua carreira dentro do pop, reconhecendo o método de composição da Tin Pan Alley: fazendo demos que seus editores musicais poderiam vender para artistas de voz mais doce, como Peter, Paul and Mary. Ele escreveu dúzias, talvez centenas, de canções longevas, lindamente moldadas, como “Don’t Think Twice, It’s All Right”. Já canções como “Po’ Boy” and “Nettie Moore” têm variações musicalmente engenhosas que Hoagy Carmichael poderia ter apreciado.

Enquanto as melodias de Dylan traçam paisagens psicológicas, suas palavras elevaram o padrão de composição do pop. Dylan aprendeu com palavras assim como fez com as melodias, com tudo que aparecia à sua frente, dentro e fora das composições pop: com a Bíblia e William Shakespeare, com as baladas celtas e o blues, com a poesia abstrata e o linguajar das ruas, com os diálogos de filmes obscuros e as brigas particulares dos amantes. Seus versos são tão polimórficos e hiperlinkados quanto a internet: imploram por explicação e elucidação. Suas palavras nos carregam para dentro de labirintos de ideias e emoções, para a Fila da Desolação e pela Estrada Infinita – não em direção a uma resolução simples, mas ao encontro a mais paradoxos e charadas. Nas músicas movidas a metanfetamina compostas por Dylan no meio dos anos 60, há a exuberante e arrogante predisposição de estar sempre um passo à frente de todos. “I Want You” tem um refrão tão monossilábico e seco quanto qualquer coisa que possa ser encontrada no rock costurado com impecáveis ganchos instrumentais. Ainda assim, seus versos, a um mundo de distância de tal habilidade capaz de garantir um lugar no Top 40, inventam uma população inteira de personagens – o agente funerário que se sente culpado, o policial bêbado, mães, pais, salvadores, a Dama de Espadas – para encenar seu anseio e alienação. Suas músicas não entregam o clima de mão beijada – elas o espalham por todos os lados. As músicas de Dylan continuamente se rearranjam espontaneamente no decorrer da história e do tempo, perpetuamente abordando o momento presente. O mistério mais poderoso das criações de Dylan é como, década após década, cada uma delas se altera com cada novo contexto.

Cada ouvinte de Dylan já teve a sensação iluminadora e inquietante de ouvir uma música já familiar se encaixar em uma nova situação. “All Along the Watchtower” pode ser aplicada a incontáveis tipos de reuniões: encontros sobre economia (“Homens de negócios, eles bebem meu vinho”), marchas políticas (“Não nos deixe dar falso testemunho”), campos de batalha (“Dois cavaleiros se aproximam”), festivais de rock (“Há muita confusão”) e cada beco sem saída físico e existencial (“Deve haver alguma saída para fora daqui”). Universos de possibilidades – o potencial de apocalipse e salvação enquanto “o vento começava a uivar” – englobados em apenas três acordes, 130 palavras e o encanto lamentoso de uma melodia. As maiores canções de Dylan não reduzem o mundo a três minutos. Elas se abrem para remapeamentos infinitos e forçam cada um de nós a encontrar nosso próprio caminho.

1 – Like a Rolling Stone
HIGHWAY 61 REVISITED 1965
Por BONO
Aquele ar de zombaria – é algo de se admirar. Elvis tinha isso, claro. E os Rolling Stones tinham um ar de zombaria que, se você prestar atenção no título da música, não passou despercebido por Bob. Mas o ar de Bob Dylan em “Like a Rolling Stone” é capaz de transformar vinho em vinagre. O pugilismo verbal escancara o ato de compor para uma geração toda e deixa o ouvinte na lona. “Like a Rolling Stone” marca o nascimento de um iconoclasta que dará à era do rock sua maior voz e seu maior vândalo. Este é Bob Dylan como um Jeremias de versos amorosos e românticos, despejando uma tempestade flamejante de palavras imperdoáveis. Tendo criticado duramente a hipocrisia do corpo político, ele agora começa a cutucar inimigos que são um pouco mais familiares: a “cena”, a alta sociedade, a “gente bonita” que pensa que “está por cima”. Aqui, ele ainda não entrou em suas próprias hipocrisias – isso viria mais tarde. Mas a diferença entre “nós” e “eles” não é tão clara quanto em seus primeiros álbuns. Aqui, ele mostra seus dentes afiados para os descolados, a vaidade da época, a ideia de que alguém tinha mais valor se estivesse usando o par de botas certo. Para alguns, os anos 60 foram uma revolução. Mas havia outros que estavam erguendo uma guilhotina em Greenwich Village, não para seus inimigos políticos, mas para os que consideravam “quadrados”. Bob já começava a adotar essa ideia, mesmo considerando que ele já era a melhor encarnação dela, o cara de cabelo encaracolado que Jimi Hendrix mais tarde admitiria ter imitado. O empilhamento de palavras, imagens, ira e melancolia em “Rolling Stone” daria o formato para formas musicais que só viriam a surgir dez ou 20 anos no futuro, como o punk, o grunge ou o hip-hop. Observando a personagem nos versos, você se pergunta: “O quão rápido ela deve ter ido de socialite a alguém que implora pela próxima refeição?” Talvez seja um vislumbre do futuro; talvez seja só ficção, um roteiro de cinema destilado em forma de canção. Deve ter sido difícil ser Dylan ou conviver com ele na época; seu olhar sempre alerta estava focado em tudo e em todos. Mas, apesar do discurso raivoso, a verdadeira peça pregada está em seu humor agudo. “Se você não tem nada, não tem nada a perder” é o slogan de camiseta. Mas a frase de que gosto mais é: “Você nunca olhou em volta e notou os cenhos franzidos dos malabaristas e dos palhaços/ Quando todos eles fizeram truques para você/ Você nunca entendeu que isso não é legal/ Você não devia deixar que as outras pessoas se divirtam por você”. A execução da faixa – destacando o guitarrista Mike Bloomfeld e o tecladista Al Kooper – é tão vívida e imediata que é como ver a tinta espirrando na tela. Como é costume de Bob no estúdio, os músicos não conhecem a música totalmente. Eles ainda a estão conhecendo, e você consegue sentir o prazer da descoberta ao mesmo tempo em que eles a experimentam.

A canção tem uma grande urgência de se comunicar; mesmo assim, não faz concessões ou se compromete. Dylan conseguiu em “Like a Rolling Stone” um perfeito equilíbrio entre mundos bastatante distintos. Não me importo particularmente em saber para quem a música é – embora eu tenha conhecido algumas pessoas que alegam ser sobre elas. O gozado é que algumas não haviam nem nascido em 1965. O que me fascina de verdade é que uma música radical assim foi sucesso nas rádios. O mundo foi transformado por uma voz excêntrica, um espírito romântico, alguém que se importou o bastante com um amor não correspondido a ponto de compor algo tão devastadoramente cáustico. Amo ouvir músicas que mudaram tudo, como “Heroes”, de David Bowie, “Rebellion (Lies)”, do Arcade Fire, “Love Will Tear Us Apart”, do Joy Division, “Sexual Healing”, do Marvin Gaye, “Smells Like Teen Spirit”, do Nirvana, e “Fight the Power”, do Public Enemy. Mas, no topo da árvore genealógica dessa família disfuncional, repousa o próprio rei cuspidor de fogo, o malabarista da beleza e da verdade, nosso Shakespeare de camisa de bolinhas. É o motivo pelo qual cada compositor a surgir depois de Dylan traz consigo sua bagagem e a razão pela qual este humilde bardo irlandês aqui carregaria suas malas com orgulho. Sempre que precisar.

2 – A Hard Rain’s A-Gonna Fall
THE FREEWHEELIN’BOB DYLAN 1963
A maior canção de protesto feita pelo maior compositor de protestos de seu tempo: um épico de sete minutos que adverte contra um apocalipse vindouro enquanto desfila visões horripilantes – crianças armadas, uma árvore pingando sangue. A ameaça da guerra nuclear estava no ar na época, como deixam claro outras músicas das sessões de Freewheelin – incluindo “Talkin’ World War III Blues” e o inflamado discurso antiabrigos nucleares “Let Me Die in My Footsteps”. Mas a chuva do título era mais abstrata do que literal. “Não é a chuva nuclear”, disse Dylan. “Significa só algum tipo de fim que está prestes a acontecer.”

3 – Tangled Up in Blue
BLOOD ON THE TRACKS 1975
“Levei dez anos para viver esta música, e dois anos para compô-la”, Dylan declarava em seus shows, antes de tocá-la. Seu casamento desmoronava em 1974 enquanto ele compunha a canção, seu exame mais pessoal sobre a dor e da nostalgia. Os versos mudam de perspectiva, entre a confissão e a crítica, e suas precisas referências às experiências dos anos 60 evocaram uma década de utopias e promessas não cumpridas. Seu vocal melancólico e o frescor da escolha dos músicos de Minneapolis contratados fizeram com que a música resgatasse um sentimento mais antigo: o coração partido e a restauração espiritual presentes nas baladas da região Apalache.

4 – Just Like a Woman
BLONDE ON BLONDE 1966
A melhor balada de Dylan não é uma canção de amor. “Just Like a Woman” é um retrato complexo de adoração e desapontamento, composto em forma de vingança, mas cantado como arrependimento. Dylan nunca revelou quem foi a mulher que serviu de inspiração (especialistas citam a protegida de Andy Warhol, Edie Sedgwick). Mas a música é mais a respeito de suas lições turbulentas sobre o romance – dar, receber e partir. É também a primeira grande performance country rock de Dylan. Naquele ano ele estava tocando com o The Hawks, mas a faixa foi gravada com músicos de Nashville, que ouviram e amplificaram seu emaranhado de êxtase e desespero.

5 – All Along the Watchtower
JOHN WESLEY HARDING 1967
Piadas e roubos são os dois pilares da arte de Dylan. Esta obra-prima sobre um piadista (que acredita estar sendo roubado) e um ladrão (que acha que tudo é uma piada) penetra direto no centro de seu trabalho. Construída em volta de um arranjo austero, a faixa começa como uma balada que parece durar eternamente. Mas, tão logo o piadista e o ladrão fazem suas declarações iniciais, a música termina com uma visão agourenta – dois cavaleiros se aproximando – deixando que os ouvintes preencham os espaços em branco. A versão definitiva de Jimi Hendrix afetou o modo como o próprio Dylan toca a música em seus shows.

6 – I Shall Be Released
BOB DYLAN’S GREATEST HITS, VOL. II 1971
Com sua evocativa história sobre um prisioneiro ansiando por liberdade, este hino fez parte do esforço consciente de Dylan de se afastar das imagens ecléticas de suas obras do meio dos anos 60. O resultado foi uma de suas mais amadas canções, gravada durante as sessões de Basement Tapes, de 1967, com a The Band. O tom de igreja do órgão e a guitarra emolduram a oração urgente de Dylan, e a harmonia afiada de Richard Manuel ilumina o refrão, como a luz do sol despejada através do vitral de uma janela.

7 – It’s Alright, Ma (I’m Only Bleeding)
BRINGING IT ALL BACK HOME 1965
Composta em Woodstock no verão de 1964, “It’s Alright, Ma” é uma transição dos versos políticos que brevemente foram o forte de Dylan para uma visão mais ampla “da vida, e apenas dela”: em vez de apontar o dedo contra uma falha cultural em particular, a música declara que tudo se trata de vaidade, hipocrisia e propaganda enganosa.

8 – Mr. Tambourine Man
BRINGING IT ALL BACK HOME 1965
Por DAVID CROSBY
Até onde sei, a gravação do the byrds para “mr. Tambourine Man” marcou a primeira vez que alguém colocou poesia boa de verdade na rádio. Os Beatles ainda não haviam chegado a “Eleanor Rigby” ou “A Day in the Life” – na época ainda compunham coisas como “Ooh, baby”. Mas a letra de Bob era impecável. “Dançar sob o céu de diamante com uma mão acenando livre” foi a frase que me conquistou. Na época de “Mr. Tambourine Man”, acho que ele estava se encontrando como poeta. Eu tinha visto Bob no Gerde’s Folk City em Nova York alguns anos antes. Todos estavam falando sobre ele. Eu o vi tocar e pensei: “Porra, eu consigo cantar melhor que esse cara. Por que esse alvoroço todo por causa do sujeito?” Então, eu comecei a ouvir com calma. E quase desisti ali mesmo. Para ser sincero, acho que os Byrds eram os melhores tradutores de Bob. Ele não tinha vislumbrado o potencial de “Mr. Tambourine Man” como a banda. Quando ele veio ao estúdio onde estávamos ensaiando e nos ouviu tocar a música, ficou extasiado. Acho que ouvir nossa versão foi parte do que fez Dylan se voltar para o rock. Ele pensou: “Espera um pouco, essa é a minha música” e notou como ela podia ser diferente.

9 – Visions of Johnanna
BLONDE ON BLONDE 1966
A obra-prima de Dylan sobre obsessão – escrita, ironicamente, pouco depois de seu casamento em 1965 – é uma tour de force, abrindo novas possibilidades de composição. Um relato extenso e impressionista de uma confusa noite em Nova York, rica em imagens detalhadas e desejo erótico, os cinco longos versos ziguezagueiam entre a precisa dissecação que Dylan faz de uma mulher, a tangível e disponível Louise e seu anseio por um ideal ausente.

10 – Every Grain of Sand
SHOT OF LOVE 1981
Esta é a balada de Shot of Love que encerra a evidente fase de composições cristãs de Dylan. Dividida em iguais partes entre o misticismo a William Blake e ressonância bíblica, a música abandona o moralismo que infestou o material religioso de Dylan para oferecer uma oração desesperada por salvação. Seguindo os vocais do cantor está a grande cantora gospel (e caso de Dylan) Clydie King: “Every Grain of Sand” evoca uma humildade tocante.

11 – It’s All Over Now, Baby Blue
BRINGING IT ALL BACK HOME 1965
No filme Don’t look back, Dylan senta-se em seu quarto no chique Savoy Hotel londrino, cercado por puxa-sacos. Entediado, ele pega seu violão e toca esta canção que havia acabado de compor: há um sorriso maléfico em seu rosto; depois dos dois versos, Dylan é o único sorrindo no quarto – todos os outros parecem arrasados. Acabou a festa. A música é um devastador adeus à inocência, seu abandono definitivo da cena folk.

12 – Desolation Row
HIGHWAY 61 REVISITED 1965
Por MICK JAGGER
“Desolation row” é musicalmente tão simples – são só três acordes por 11 minutos, com o mínimo de acompanhamento – e ainda assim é muito efeticiente. Há Dylan, um baixista e um guitarrista contratado, Charlie McCoy, de Nashville, que acrescenta um pequeno contraponto à melodia. Mesmo depois de ouvir muitas vezes, seu modo de tocar ainda soa doce; gosto do leve tom espanhol nela. Mas o detalhe não atrapalha o que obviamente é o principal: a voz e os versos. O vocal de Dylan é recitativo, bem cara de pau, mas fisga você. O que é maravilhoso na letra são todos estes personagens protestando em nossa imaginação: pessoas famosas aparecem surrealisticamente, algumas delas míticas e algumas reais. O Fantasma da Ópera. Ezra Pound e T.S. Elliot. Cinderela. Bette Davis. Caim e Abel. Uma das minhas partes favoritas é a que fala sobre “Einstein disfarçado de Robin Hood”. Alguém disse que “Desolation Row” é a versão de Dylan para “The Waste Land”. Não sei se é verdade, mas é um conjunto maravilhoso de imagens – uma fantasia saída da Rua Bowery – que real mente põe sua imaginação para funcionar.

Subterranean Homesick Blues
BRINGING IT ALL BACK HOME 1965
O sonho americano, segundo Dylan: “Vinte anos de estudo e colocam você no turno matutino”. E isso é se você tiver sorte, garoto. “Subterranean Homesick Blues” foi sua primeira explosão elétrica, lançada como single em março de 1965 e chegando ao Top 40. Dylan desfila um proto-rap, uma barragem de tiradas, confundindo a América. “Cuidado garoto/ Vão acertar você”, avisa Dylan, fugindo da polícia, dos professores, do exército e até dos meteorologistas.

14 – Highway 61 Revisited
HIGHWAY 61 REVISITED 1965
Registrada durante uma maratona de sessões de gravação, a galopante faixa-título de seu primeiro álbum elétrico mostra Dylan em seu modo lamentoso. Ele guia uma série de personagens malfadados (sendo Deus e Abraão os mais conhecidos) pela “estrada do blues” dos Estados Unidos, enquanto destila seu veneno contra uma série de hipocrisias americanas como o falso patriotismo e o comercialismo grosseiro.

15 – Simple Twist of Fate
BLOOD ON THE TRACKS 1975
Aqui, Dylan observa um relacionamento idílico que desmoronou por razões que nenhuma das partes foi capaz de controlar. Costuma-se dizer que ele estava cantando sobre o fim de seu casamento com Sara, mas o caderno com as letras de Blood on the Tracks revela um história diferente. A música tinha o subtítulo, “4th Street Aff air”, por causa do apartamento onde ele morou com Suze Rotolo. O narrador prosseguiu embarcando em casos de uma noite só sem o menor sentimento, mas seu coração havia fi cado no passado.

16 – Positively 4th Street
BOB DYLAN’S GREATEST HITS 1967
Por LUCINDA WILLIAMS
Adoro o tema desta música: inveja versus sucesso artístico. Já vi acontecer. “Você me vê na rua, e sempre se faz de surpreso/ Você diz, ‘Como vai? Boa sorte!’ Mas não é sincero”. Descobri isso quando tentei me mudar de volta para Austin. Comecei cantando nas ruas de lá em 1974, e então tentei voltar depois de ter passado um tempo em L.A. Simplesmente não deu certo. Uma vez, estávamos tocando em um lugar, e trombei com uma amiga daquela época, também musicista. Eu estava voltando para o ônibus, e ela queria sair para bater papo – ela disse, “Lucinda, às vezes queria que você não tivesse ficado famosa”. O que diabos isso quer dizer? Jesus. Mas “Positively 4th Street” é sobre isso. Amo a última frase: “Queria que pelo menos uma vez você estivesse no meu lugar/Você saberia como é um saco ver você”. É tão bom cantá-la. Ouvi que ele escreveu a música quando começou a ficar famoso e ainda morava no Village. Ninguém quer admitir que esse tipo de coisa acontece, e claro que ninguém sabe como é ser Bob Dylan. Há apenas um. E ele é tão bom nisso.

17 – This Wheel’s on Fire
THE BASEMENT TAPES 1975
Uma evocação caleidoscópica do caos que sugere de tudo, desde o Vietnã até o acidente de moto sofrido por Dylan em 1966, “This Wheel’s on Fire” é na verdade uma música de fúria disciplinada e letal. Dylan pediu a Rick Danko, da The Band, que criasse a melodia, uma coisa lenta e decrépita que também capturava o desespero do abandono. Os Byrds gravaram a cover definitiva em seu LP de 1969, Dr. Byrds and Mr. Hyde: o som da guitarra distorcida de Clarence White soa como a chegada do apocalipse.

18 – Ballad of a Thin Man
HIGHWAY 61 REVISITED 1965
Dylan compôs muita coisa maliciosa, mas poucas são mais engraçadas ou contundentes quanto esta canção sobre um cara sem noção que não consegue entender nem as coisas mais óbvias. É também cheia de indiretas homoeróticas, do homem nu no primeiro verso ao engolidor de espadas e o anão de um olho só que aparecem depois, talvez porque nada seria capaz de deixar o certinho Mr. Jones mais desconfortável. Dylan sempre foi escorregadio sobre a identidade do verdadeiro Mr. Jones.

19 – Blind Willie McTell
THE BOOTLEG SERIES VOL. 1-3 1991
Diz-se que o produtor e guitarrista de Infidels, Mark Knopfler, ficou chocado quando Dylan gravou este que seria um dos pontos altos do álbum. Décadas mais tarde, a decisão de Dylan permanece inescrutável: “Blind Willie McTell” é uma de suas poucas obras-primas do começo dos anos 80. Sobre uma base enxuta, ele mergulha fundo no sul dos Estados Unidos, detalhando seus presidiários, sinos de agentes funerários e “damas ciganas de carvão”. É um tributo arrepiante ao McTell real – que, como Dylan, era conhecido por suas turnês intermináveis.

20 – Blowin’ in the Wind
THE FREEWHEELIN’ BOB DYLAN 1963
A música que rotulou Dylan como profeta pela primeira vez faz nove perguntas e não responde a nenhuma delas. É uma releitura da canção spiritual anti-escravatura “No More Auction Block”. Dylan alegou ter completado a composição desta meditação sobre os atos inumanos da humanidade em dez minutos. A versão que o público mais ouviu em 1963 não foi a de Dylan – foi a cover de Peter, Paul and Mary, que chegou aos mais altos postos da parada pop.

21 – Mississippi
LOVE AND THEFT 2001
Por SHERYL CROW
Lancei “Mississippi” antes de Dylan, no meu álbum The Globe Sessions. Ela mudou o disco inteiro. Não há sobras na música – cada frase tem um propósito. Ele disse que gostava que cada frase de suas músicas tivesse a possibilidade de ser a primeira frase de uma nova música. Certamente é esse o caso com “Mississippi”. Ele fica filosófico falando sobre envelhecer, contando uma história de redenção e resolução para o homem comum de um modo que é quase bíblico: “Bem, meu barco está em pedaços e está afundando rápido/Estou afogando no veneno, não tenho futuro, não tenho passado/Mas meu coração não está cansado, está leve e livre”. É Dylan escrevendo como um contista, como Steinbeck ou Mark Twain – criando uma história, mas fazendo essas declarações clássicas, arrebatadoras. “Mississippi” é nossa introdução a Dylan como alguém encarando a mortalidade com uma atitude otimista. Bob Dylan pode estar fazendo 70 anos, mas para mim ele nunca envelhece. Assim são os personagens mitológicos.

22 – Don’t Think Twice, It’s All Right
THE FREEWHEELIN’ BOB DYLAN 1963
Em 1962, Dylan estava deprimido depois que Suze Rotolo, sua primeira namorada séria, deixou Nova York para uma temporada sem data de retorno na Itália. Da dor nasceu esta clássica balada de fim de relacionamento, que oscila do desesperado senso de abandono à amargura, afirmando que Suze sempre o fez perder seu tempo precioso. “Não é uma canção de amor”, ele escreveu nas notas do encarte de The Freewheelin’ Bob Dylan. “É o tipo de afirmação que talvez você possa fazer para se sentir melhor. É como se você estivesse falando consigo mesmo.” Dylan tomou a melodia da música emprestada do cantor folk Paul Clayton. A disputa foi resolvida mais tarde em tribunal, quando Clayton moveu um processo contra ele.

23 – Forever Young
PLANET WAVES 1974
Dylan gravou esta oração folk duas vezes com a The Band – uma deslumbrante versão balada que fechava o lado 1 de Planet Waves, e um arrasador country rock que começava o outro lado do disco. Versos como “Que você tenha alicerces fortes/Quando os ventos da mudança virarem” são tão universais e otimistas quanto Dylan era capaz de escrever. Eles também funcionam como uma bênção para uma geração vinda da ressaca cultural pós-anos 60. Seriam esses os mesmos ventos que ele uma vez sugeriu trazerem as respostas em “Blowing in the Wind”? Dylan disse que a escreveu para seu fi lho Jesse; outros a veem como um cumprimento ao amigo Neil Young, que chegou ao número 1 das paradas em 1972 com a sua clássica “Heart of Gold”.

24 – Lay, Lady, Lay
NASHVILLE SKYLINE 1969
Por LENNY KRAVITZ
Ouvi “Lay, lady, lay” quando eu tinha 6 ou 7, rodando por Nova York no banco de trás do velho Fusca dos meus pais, ouvindo a WABC. É a primeira música de Bob Dylan de que me lembro de ter gostado. Mais tarde, quando ouvi outra de suas faixas, fiquei pensando: “Cadê aquela voz grave de crooner?” Ele canta com uma voz bem diferente de sua voz normal. Achei que o cara soava daquele jeito o tempo todo! É uma música bem black – bem emocional e sensual. “Deite na minha grande cama de bronze” é um verso que eu esperaria ouvir de Isaac Hayes. O que é lindo em Dylan é que ele é como um camaleão. Há tantos personagens dentro dele, como um pintor com um arsenal ilimitado de cores. Adoro o vocal, a progressão de acordes descendente e as viradas da bateria. É uma música linda, simples e adoro todo o clima dela.

25 – Knockin’ on Heaven’s Door
PAT GARRET & BILLY THE KID 1973
Fã de faroestes (e de foras da lei de todos os tipos) desde sempre, Dylan compôs um punhado de músicas para o filme de Sam Peckinpah, Pat Garret and Billy the Kid, de 1973. Esta dolorosa história sobre um oficial da lei à beira da morte foi um hit e tornou-se uma de suas músicas mais gravadas por outros artistas, com versões de sucesso executadas tanto por Eric Clapton quanto pelo Guns N’ Roses.

26 – Masters of War
THE FREEWHEELIN’BOB DYLAN 1963
A canção de protesto mais raivosa de Dylan. Seu ponto de partida parece ser o medo do holocausto nuclear, tão presente no começo dos anos 60 – mas caracteristicamente Dylan deu a ela uma virada crucial. Enquanto as canções antiguerra mais típicas costumam apontar o dedo para políticos e generais, Dylan desafia os fabricantes de armas. Seu alvo é o complexo militar-industrial: é a ganância quem move os mestres da guerra, não a ideologia. A música termina com o cantor clamando a morte dos construtores de bombas, prometendo vigiar seus túmulos “até que eu tenha certeza de que vocês estão mortos”.

27 – Sad-Eyed Lady of the Lowlands
BLONDE ON BLONDE 1966
Esta ode a Sara Dylan foi escrita na calada da noite em um estúdio em Nashville. Enquanto os músicos que havia contratado jogavam baralho, ele sentou-se e escreveu os versos docemente surreais. Depois de oito horas de trabalho, Dylan chamou os membros da banda ao estúdio às 4h da manhã e deu a eles instruções mínimas. Eles não tinham ideia de que a canção se estenderia por 11 minutos – e ficaram espantados quando, mais tarde, Dylan contou que eles haviam acertado na primeira tomada.

28 – The Times They Are A-Changin’
THE TIMES THEY ARE A-CHANGIN’ 1964
Quando as pessoas descrevem Dylan como o “porta- voz de uma geração”, têm esta música em mente. Mesmo rejeitando o título, acabaria conscientemente fazendo jus a ele com este hino passional. Uma obra-prima da composição musical política, a faixa não aborda nenhum assunto específico ou ação concreta, simplesmente observa um mundo em turbulência – foi lançada poucos meses depois do assassinato de John F. Kennedy. Dylan canta como um bardo ou profeta, em cadências claramente bíblicas.

29 – You Ain’t Goin’ Nowhere
BOB DYLAN’S GREATEST HITS VOL. II 1971
Como Dylan passou o Verão do Amor? Enfiado em um porão no norte do estado de Nova York, fazendo demos estranhas com seus amigos da The Band, cantando este alerta estóico sobre os tempos difíceis à frente: a primeira vez que a maioria das pessoas ouviu a faixa foi na versão country dos Byrds, presente em Sweetheart of the Rodeo, de 1968. Dylan a lançou três anos mais tarde, em Greatest Hits Vol. II, destacando o banjo de seu colega de Woodstock, Happy Traum.

30 – Girl from the North Country
THE FREEWHEELIN’ BOB DYLAN 1963
Por KEITH RICHARDS
Enquanto a invasão britânica prosseguia, Bob Dylan foi o homem que realmente colocou o ponto de vista americano de volta ao foco. Ao mesmo tempo ele havia absorvido influências das canções folk anglo-celta, e isso certamente é verdadeiro em “Girl from the North Country”. A música tem todos os elementos de uma bela composição folk sem ser pretensiosa. Nos versos e na melodia, há uma ausência da ousadia que Bob viria a demonstrar mais tarde. Não há sinal nenhum daquele ressentimento. É muito difícil compor canções assim. Ele voltou a gravá-la com Johnny Cash, mas eu não acho que seja uma música para um duo. Acho que Bob acertou da primeira vez. De certo modo, vejo “Girl from the North Country”, “Boots of Spanish Leather” e “To Ramona” como uma trilogia. Seria Ramona a garota do norte? Ela é a mesma que envia as botas de couro espanhol? Há algumas conexões entre elas. O dedilhado também é quase o mesmo lick em “Boots of Spanish Leather” e “Girl from the North Country”. É como uma extensão da mesma música. Antes de ele se converter à guitarra elétrica e se submeter à persistente disciplina de uma base rítmica, havia uma fluência linda nas músicas de Bob que você só consegue perceber quando há somente voz e violão. Ele consegue flutuar por entre os compassos vez ou outra. Ele não é restrito por nada; é uma linda forma de expressão. Você deixa certas notas reverberarem mais tempo, e não tem problema porque tudo se encaixa na música. É um dos compositores mais prolíficos: acho que ele já escreveu mais músicas do que eu já tive jantares decentes. Por isso, Bob, continue mandando ver! Ele é uma inspiração, mesmo, para todos nós, não só como compositor, porque ele está sempre tentando um rumo novo. Amo o cara – e também amo que ele seja do rock and roll!

31 – Can You Please Crawl Out Your Window?
LANÇADA COMO SINGLE 1965
É famosa a história de que Dylan chutou o cantor folk Phil Ochs para fora de uma limusine por ter dito que não gostava de “Can You Please Crawl Out Your Window?”. De fato, é uma das grandes canções rudes de Dylan. Quase uma sequência de “Like a Rolling Stone”, a música destila o jorro de insultos de sua predecessora resumindo-os a tensos três minutos e meio de malevolência atirada e concentrada. O estilo energético e sem firulas veio da banda The Hawks, acompanhando Dylan em estúdio pela primeira vez depois de tocar em um punhado de shows com o cantor.

32 – Chimes of Freedom
ANOTHER SIDE OF BOB DYLAN 1964
A música mais ambiciosa composta por Dylan até então – uma obra-prima de seis versos em que uma tempestade e os flashes de seus relâmpagos se tornam a luz que guia foras da lei, renegados, artistas e “cada pessoa problemática neste vasto universo” – evoluiu a partir de um breve poema que ele havia escrito sobre o assassinato de John F. Kennedy no fim de 1963. O dom de Dylan para rimas internas e assonância floresceu aqui, bem como seu talento para elaborar frases. O The Byrds gravou a faixa em seu álbum de estreia em 1965.

33 – Idiot Wind
BLOOD ON THE TRACKS 1975
A versão original desta peça central de Blood on the Tracks era uma balada acústica melancólica, mas, quando Dylan resolveu regravar metade do álbum na última hora em Minneapolis, a profundamente reescrita “Idiot Wind” tornou-se uma de suas músicas mais críticas, raivosas e furiosas – um desabafo violento contra a mulher com quem havia se casado e contra a idiotice em si. A versão ao vivo presente no álbum Hard Rain – tocada na presença de seu aparente alvo, sua futura ex-esposa, na plateia – é mais cruel e ainda mais gloriosamente enfurecida.

34 – Isis
DESIRE 1976
Sara Dylan estava no estúdio quando seu marido gravou “Isis”. Sua presença era adequada: a música pode muito bem ser vista como uma alegoria elaborada do casamento, separação e breve reunião de ambos – reimaginada como a jornada épica de um narrador que precisa atravessar tempestades geladas, escalar pirâmides e roubar um túmulo antiquíssimo antes de reconquistar sua noiva fugitiva, a “criança mística” chamada Isis. Não muito depois, uma versão incendiária de “Isis” tornou-se um dos pilares da lendária turnê Rolling Thunder Revue.

35 – The Lonesome Death of Hattie Carrol
THE TIMES THEY ARE A-CHANGIN’ 1964
Dylan havia lido uma história sobre Hattie Carroll, uma negra empregada de hotel e mãe de nove filhos de Baltimore, que morreu depois de ser supostamente agredida por William Zantzinger, um branco dono de uma fazenda de tabaco. Ele cumpriu apenas seis meses de prisão por assassinato, embora evidências apresentadas colocassem em dúvida sua culpa. Dylan compôs este clássico como uma história que funcionava tanto como uma acusação de racismo quanto da divisão de classes.

36 – With God on Our Side
THE TIMES THEY ARE A-CHANGIN’ 1964
Por TOM MORELLO
Posso ser a última pessoa viva que ainda acredita que Dylan se vendeu ao partir para a guitarra elétrica em Newport, em 1965. Havia a pressão para que liderasse um movimento, algo pelo qual não tinha interesse. Acho que ele perdeu uma oportunidade de descobrir se havia um limite para o que a música podia fazer em termos de impulsionar políticas radicais. Mas chegou perto disso com “With God on Our Side”. Eu não sabia o quão politicamente radical era Dylan até pegar The Times They Are A-Changin’. Ele tinha 22 anos, mas era como se tivesse 80, resmungando sobre a dura realidade. “With God on Our Side” não é uma relíquia. É uma exposição viva dos crimes de guerra, passados, presentes e futuros. Dylan expõe a hipocrisia da guerra e desmascara as mentiras das operações militares norte-americanas. Ele canta sobre as pessoas que fazem a guerra, lucram com ela, e sobre as pobres famílias que mandam seus filhos para morrer. “Você não conta os mortos com Deus a seu lado”, ele canta, “e não faz perguntas com Deus ao seu lado”. Da doutrina militar de dominação rápida a Abu Ghraib, de civis mortos ao embrólio no Afeganistão, aquelas frases podem ser aplicadas aos abusos de hoje.

37 – Maggie’s Farm
BRINGING IT ALL BACK HOME 1965
A música que anunciou um Dylan renascido ao abrir seu set elétrico de estreia no Newport Folk Festival em 1965, era de fato uma canção folk: uma variação de “Down On Penny’s Farm”, canção sobre um chefe cruel. Em sua versão de estúdio, “Maggie” era um country rock balançado, mas a versão de Newport não era tão alegre. Apoiado por uma guitarra dilacerante, Dylan rosnava: “Faço o melhor/Para ser exatamente como sou/ Mas todo mundo quer que você/Seja exatamente como ele”. Seu tom desafiador mais tarde inspirou Barack Obama, durante a eleição de 2008. “Tenho provavelmente umas 30 faixas de Dylan no meu iPod”, contou ele à Rolling Stone. “Uma das minhas favoritas durante a campanha é ‘Maggie’s Farm.’ ”

38 – My Back Pages
ANOTHER SIDE OF BOB DYLAN 1964
“My back pages” era o som do maior cantor de protestos dos anos 60 deixando a política para trás – uma balada que alterna tristeza e desprezo, em que Dylan evoca seu tempo como cantor folk político e tira sarro da seriedade como seu eu anterior encarava a si mesmo no refrão: “Eu era tão velho então, sou mais jovem que isso agora”. Dylan prometeu um rompimento com o passado ao intitular o LP Another Side of Bob Dylan. “My Back Pages” declarava sua intenção. “Não há nenhuma canção acusatória aqui”, disse Dylan sobre o álbum. “Não quero mais escrever pelos outros. Você sabe – ser um porta-voz.”

39 – Hurricane
DESIRE 1976
Em 1975, Dylan assumiu a causa de Rubin “Hurricane” Carter, um boxeador negro condenado à prisão perpétua por triplo homicídio em 1966. “Reconheci o fato de que ali havia um irmão”, disse Carter sobre Dylan, que o visitou na cadeia. Dylan organizaria dois shows beneficentes, e, com o diretor de teatro Jacques Levy, escreveu “Hurricane”, uma intensa declaração da inocência do atleta. A música abre como um roteiro de filme e termina mais de oito minutos depois com Carter preso. A repercussão da música ajudou Carter a conseguir um novo julgamento, mas ele foi condenado novamente. Em 1985, a condenação foi invalidada. Três anos depois, as acusações foram retiradas.

40 – I Dreamed I Saw St. Augustine
JOHN WESLEY HARDING 1967
Este hino deliciosamente ambíguo foi feito em cima da frase de abertura de “Joe Hill”, um folk clássico sobre um sindicalista e compositor que foi executado por causa de um duplo assassinato (provavelmente incriminado por alguém). Dylan substitui a certeza do folk original pela dúvida: São Agostinho era um mártir, mas o narrador se coloca “Entre aqueles que o condenaram à morte”, e nunca deixa claro se deveríamos simpatizar com Agostinho, ou com Dylan ou nenhum dos dois. Só temos certeza da intensidade maltrapilha e levemente desafinada de Dylan.

41 – I’ll Keep It With Mine
BIOGRAPH 1985
Dylan gravou “I’ll keep it With Mine” em 1965, mas só foi lançá-la anos depois – e nunca tocou a faixa ao vivo. Isso não evitou que o público se apaixonasse pela música, uma balada sobre amizade cuja versão de 1965 conta com um vocal doce e melancólico. “É hipnótico – só Dylan e o piano”, diz Cameron Crowe, “e seu vocal é meio heroico”. Dylan disse: “Talvez para mim ela não tenha soado como uma música para um álbum”, ao comentar sobre gravações engavetadas como “I’ll Keep It with Mine”. Mas ele ainda guardava um tom filosófico sobre esta canção em particular: “Se as pessoas gostam, elas gostam”.

42 – I Threw It All Away
NASHVILLE SKYLINE 1969
Depois de sete anos de músicas que eram brutalmente originais, foi um choque ouvir Dylan se entregar ao estilo de estrutura musical dos tempos da Tin Pan Alley, e ainda mais chocante ouvir sua boca de caubói hiperarticulada murmurando frases como “O amor é tudo que existe, ele faz o mundo girar”. O fato é que o cantor também era um grande fã do country rock tradicional: os versos cheios de arrependimento sugerem que se trata de uma defesa quanto à virada radical tomada por sua carreira, de oráculo pop relutante sempre em turnês a um rapaz direito, que na época sustentava o anseio de fazer parte da máquina musical de Nashville.

43 – Gotta Serve Somebody
SLOW TRAIN COMING 1979
Por SINÉAD O’CONNOR
Eu tinha cerca de 13 anos quando meu irmão mais velho, Joseph, trouxe para casa Slow Train Coming, e o disco me deixou doida. As pessoas dizem que Dylan não gosta muito deste álbum. Seria um disco impressionante se qualquer um tivesse feito, mas é especialmente impressionante por ter sido feito por ele. A canção que mais me afetou foi “Gotta Serve Somebody”. Fazendo parte de uma família católica na Irlanda, as únicas músicas religiosas que já havíamos escutado eram coisas horríveis . O fato de esta música ter saído na Irlanda foi algo capaz de mudar sua vida. Ele não estava dando um sermão ou apontando para uma congregação e dizendo o que tinham que fazer. Havia quase uma sexualidade no som da guitarra e dos outros instrumentos. E a letra era brilhante – o que ele está dizendo é que, não importa o que você faça da sua vida, está fodido se não tomar uma posição sobre alguma coisa. Gosto bastante disso, como uma lição de um mestre professor sobre como ser um artista e também, creio, como viver sua vida.

44 – Stuck Inside of Mobile with the Memphis Blues Again
BLONDE ON BLONDE 1966
“Oh, mamãe, será que este é mesmo o fim?” Dylan geme repetidamente neste desesperado épico de sete minutos. O músico conduz os profissionais da sessão em Nashville verso a verso em imagens surreais de blues, e a banda soa inspirada pelo desafio. O clima é todo de sexo, drogas, tentação e paranoia. A despeito da abstração poética, Dylan entrega aqui um de seus vocais mais sensuais do álbum Blonde on Blonde.

45 – It Ain’t Me, Babe
ANOTHER SIDE OF BOB DYLAN 1964
Provavelmente escrita em um hotel londrino, “It Ain’t Me, Babe” está entre as mais elegantes canções do tipo “as mulheres não me entendem” já escritas por Dylan, catalogando as infundadas expectativas de cavalheirismo antiquado e fidelidade de uma ex-namorada. A frase de abertura “Se afaste da minha janela” é uma fórmula poética que data do século 16, mas a música também bebe de fontes contemporâneas: o “no, no, no” parecia ser uma paródia do “yeah, yeah, yeah” em “She Loves You”, dos Beatles. “Oito posições no Top 10”, disse Dylan sobre o domínio do Fab Four no pop. “Para mim pareceu que um linha definitiva estava traçada.” A música chegou ao Top 10 pelas mãos do grupo The Turtles e também foi gravada na época pelo amigo de Dylan, Johnny Cash, e a esposa dele, June Carter.

46 – Jokerman
INFIDELS 1983
Por CHRIS MARTIN do Coldplay
Comecei a gostar de Bob Dylan quando eu tinha 16 anos. Eu tinha ouvido aquele mito: “Ah, Bob Dylan não sabe cantar”. Mas, naquele ponto, metade dos CDs que eu tinha eram dele. Cerca de uma vez por ano, eu passava um mês inteiro ouvindo só Bob Dylan. Me lembro de um amigo de George Harrison dizendo, “Ah, George gosta é de chegar em casa e escutar seus álbuns do Bob Dylan”. Descobri Infidels depois que vi um clipe de “Jokerman”. Tinha pinturas italianas e imagens religiosas e Ronald Reagan aparecia no fim. Eu achava que eu era um grande fã de Dylan, mas “Jokerman” foi um choque: “Como esse cara aparece com uma música que vem de um outro tipo de mundo e ainda assim é tão brilhante?” Mark Knopfler e Mick Taylor – o herói injustiçado dos Rolling Stones – estão nas guitarras. E Sly (Dunbar) e Robbie (Shakespeare) trouxeram o clima de reggae. A música parece durar 87 minutos, como se a hora do jantar tivesse finalmente chegado e eles parassem de gravar. Não penso sobre quem o Jokerman na verdade é – se é Deus, Satã ou o próprio Dylan. A beleza de Bob Dylan está no mistério. Adoro as frases “O livro de Leviticus e Deutoronômio/A lei da selva e do mar são seus únicos professores”. E o refrão com aquele “oh-oh-oh” desafinado. A música soa fácil no melhor sentido possível.

47 – Spanish Harlem Incident
ANOTHER SIDE OF BOB DYLAN 1964
Dylan tocou esta canção breve e doce sobre uma paixão por uma vidente exatamente uma vez (no show de Halloween documentado em Live 1964: Concert at Philharmonic Hall). O “incidente” do título parece ser tão pequeno quanto os incidentes costumam ser: a “garota cigana” segurando sua mão na dela, e desencadeando uma profusão de associações. “Spanish Harlem Incident” é uma das músicas sexuais de Dylan mais abertas e claras, incluindo referências aos “tambores chocalhantes” dela e às “palmas inquietas” dele.

48 – Sara
DESIRE 1976
A música mais escancaradamente autobiográfica que Dylan já escreveu fala de sua então isolada esposa. A faixa também mostrou que Dylan podia ser charmoso. “Sara” é uma canção de amor amplamente devotada às memórias, com Dylan se referindo a Sara como “o doce amor da minha vida” em uma valsa um tanto fúnebre. Mais à frente na música, ele claramente pedia por perdão, mas ao mesmo tempo soava como um homem que se tornou distante e confuso. Os dois se reconciliaram por um tempo, mas conforme o casamento ia se deteriorando de uma vez por todas no ano seguinte, Dylan substituiu “Sara” por “Idiot Wind” nos sets da turnê Rolling Thunder Revue. O casal se divorciou oficialmente em 1977.

49 – Up to Me
BIOGRAPH 1985
Uma canção de primeira linha que Dylan deixou de fora de Blood on the Tracks por razões que só ele conhece. É reminiscente de “Shelter from the Storm” tanto musicalmente quanto em termos de arranjo. Tematicamente, a faixa se encaixa perfeitamente no álbum, que foi inspirado pela dissolução do casamento de Dylan com Sara Lownds. “Up to Me” pode simplesmente ter parecido pessoal demais para que Dylan a lançasse. “E se nunca mais nos encontrarmos, baby, lembre-se de mim, como meu violão solitário tocou docemente para você aquela velha melodia”, ele canta no último verso.

50 – Not Dark Yet
TIME OUT OF MIND 1997
Poucos meses antes de Dylan lançar Time Out of Mind, o cantor foi hospitalizado com uma grave infecção no coração. “Nor Dark Yet” foi concluída muito antes de sua doença, mas a bela canção parecia ter quase profetizado o acontecido. Reforçando a produção de Daniel Lanois, Dylan canta com a voz de um homem encarando o crepúsculo de sua vida. “Eu nasci aqui e vou morrer aqui contra a minha vontade”, canta. “Sei que parece que estou me movendo, mas estou parado.” Dylan gravou canções obcecadas com a morte logo em seu primeiro álbum, em 1962. Aqui, ele já era um calejado senhor de 55 anos, e é possível ouvir cada um destes anos naquela voz.

51 – Things Have Changed
WONDER BOYS (SOUNDTRACK) 2000
Quando Dylan aceitou o Oscar de 2001 por esta canção do filme Garotos Incríveis, ele agradeceu “aos membros da Academia que foram corajosos o suficiente para me dar este prêmio por uma música que não faz rodeios ou finge não perceber a natureza humana”. É uma das canções mais amarguradas já escritas por ele. Representa também uma dura retaliação contra algumas de suas primeiras músicas políticas, com seu anseio por justiça e progresso: “Eu costumava me importar, mas as coisas mudaram”, canta. Como o título sugere, é basicamente a irmã gêmea malvada de “The Times They Are A-Changin’”.

52 – Tears of Rage
THE BASEMENT TAPES 1975
Esta fascinante balada chamou a atenção do mundo como a faixa de abertura de Music from Big Pink (1968), do The Band. No disco ela é cantada com uma graça agonizante pelo tecladista Richard Manuel, que coescreveu a música com Dylan durante as sessões de 1967 na habitação coletiva Big Pink. Quando The Basement Tapes saiu em 1975, uma versão com Dylan nos vocais principais veio à luz. Ela é elíptica, uma sequência de imagens surreais com inspiração na Bíblia e Rei Lear, de Shakespeare.

53 – When I Paint My Masterpiece
BOB DYLAN’S GREATEST HITS VOL. II 1971
Provavelmente a música menos irritante já escrita sobre a vida de um superstar na estrada, a versão de estúdio gravada por Dylan surgiu no fim de 1971, entre o material inédito de Greatest Hits Vol. II. Produzida por Leon Russell, a faixa despeja acordes de piano gospel sobre um lamento a respeito da espera da inspiração entre shows, sobre vagar sem rumo e os problemas decorrentes da fama. A versão definitiva foi gravada ao vivo com a The Band no Ano-Novo de 1971 e lançada em Rock of Ages, álbum do grupo canadense.

54 – 4th Time Around
BLONDE ON BLONDE 1966
O motivo exato que inspirou “4th Time Around” é um dos grandes mistérios que cercam Bob Dylan. A melodia e a história são baseadas em “Norwegian Wood”, lançada pelos Beatles em 1965 – uma das primeiras músicas da banda a apresentar uma clara influência de Dylan. Seria a frase “Eu nunca pedi sua muleta, agora não venha me pedir a minha” uma advertência para que o quarteto parasse de copiá-lo? Dylan nunca respondeu à pergunta, mas três meses depois deu uma notória volta de limusine por Londres com John Lennon (ambos chapados) e não parecia guardar nenhum rancor.

55 – If Not for You
NEW MORNING 1970
Depois do desastre conceitual e de crítica que foi Self Portrait (a resenha da Rolling Stone falou: “Que merda é essa?”), os fãs se perguntaram se Dylan havia perdido a mão. Mas não precisaram se perguntar por muito tempo – New Morning, lançado quatro meses depois, abria com este country rock rápido e adorável. “Compus pensando na minha mulher”, disse Dylan.

56 – You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go
BLOOD ON THE TRACKS 1975
Por JIM JAMES do My Morning Jacket
Blood on the tracks sempre foi um dos meus discos favoritos de Dylan – é o clássico álbum de amor difícil para se ouvir quando está se sentindo meio sozinho. Esta deve ser a campeã entre as músicas que mais vezes ouvi seguidamente. Não sei se é só por causa do violão e do baixo, o modo como os instrumentos trabalham juntos ritmicamente. Mas, quando a escuto, sinto que é a essência do amor. Ele descreve tudo tão visceralmente. Quase posso sentir o aroma das árvores e das diferentes pessoas que conheci no decorrer dos anos, as flores, a luz do sol. A música mostra como as coisas parecem quando você está apaixonado e como tudo se volta contra você quando tem que ir embora ou seguir em frente, mudando sua vida e da outra pessoa. O personagem da canção reflete de um modo lindo, dizendo que sua ex-paixão sempre fará parte dele. Ele ainda verá sua amada por todos os lados.

57 – Just Like Tom Thumb’s Blues
HIGHWAY 61 REVISITED 1965
Teria Dylan passado pelo México antes de escrever este conto sobre uma degenerada viagem para Juárez? A visão que ele tem da cidade de fronteira é a de um lugar perigoso, ainda que tentador, repleto de drogas, corrupção e “mulheres famintas” como Saint Annie e Sweet Melinda – cujos nomes inocentes ocultam o fato de “elas podem mesmo acabar com você”. A música adquiriu um ar ainda mais sinistro quando Dylan a apresentou com o The Hawks em sua turnê mundial de 1966. Uma agressiva versão ao vivo gravada em Liverpool, lançada como lado B de “I Want You”, foi por muitos anos o único registro oficial dessa agitada turnê.

58 – Percy’s Song
BIOGRAPH 1985
Mais conhecida talvez pela performance de Joan Baez em Don’t Look Back, e que acabou roubando a cena, “Percy’s Song” foi originalmente gravada para The Times They Are A-Changin’ em 1963, mas não entrou nele. Mesmo assim, este lamento melancólico está no mesmo patamar dos melhores trabalhos compostos por Dylan nesta era. Ele canta em tons assombrados sobre um amigo julgado por assassinato depois de um acidente de carro fatal. “Ele não é criminoso e seu crime não existe”, o narrador protesta, mas seus apelos à compaixão do juiz são todos em vão.

59 – Million Dollar Bash
THE BASEMENT TAPES 1975
De certa forma esta é a canção tema de The Basement Tapes: uma divertida sequência de versos nonsense em uma melodia adorável e desajustada que captura o espírito das pessoas tocando puramente pela diversão. Dylan a gravou no Big Pink, em julho de 1967, com Garth Hudson, Richard Manuel e Rick Danko da The Band. Não há bateria na faixa, o que em parte contribui com a base rítmica festiva e oscilante. Aquelas sessões gravadas no porão foram uma folga da loucura representada pela crescente fama de Dylan.

60 – Buckets of Rain
BLOOD ON THE TRACKS 1975
Por CAMERON CROWE
Um dos grandes dons de Bob Dylan tem sido colocar um pequeno floreio em cada álbum, algo que não implora por atenção, mas se torna inesquecível. Para mim, isso é resumido em “Buckets of Rain”, o floreio perfeito para Blood on the Tracks: melancólica, galopante e agridoce. É astuta e despretensiosa, mas também tem um poder enorme. Uma coisinha no canto de um álbum, um filme, ou qualquer obra escrita pode ser o elemento mais importante de todos. Esta pequena e calma canção torna Blood on the Tracks algo completo, e um de seus melhores álbuns. Dylan estava em uma fase intermediária quando a criou. Ouvi dizer que ele havia voltado para o Minnesota e estava morando em uma fazenda. Ele tinha um caderno, e as letras de Blood on the Tracks foram produzidas nesse período. Ele ia partir para algo pessoal. Ia doer ouvir, mas seria revelador. Acabou sendo o álbum confessional de Dylan que as pessoas ansiavam ver há muito tempo, e ele jamais retomou o tópico desde então. Ele colocou uma porção de obstáculos e despistes, mas Blood on the Tracks é seu Blue – seu álbum confessional sobre relacionamentos. Não consigo pensar nele sem “Buckets of Rain”. As coisas produzidas por Dylan continuam a informar cada nova geração – elas simplesmente continuam vivas e presentes, e uma música como “Buckets of Rain” respira com uma verdade simples sobre a vida real. Depois da dolorosa dor de um coração partido vem o alívio da chuva.

61 – It Takes a Lot to Laugh, It Takes a Train to Cry
HIGHWAY 61 REVISITED 1965
Esta canção ainda era um blues acelerado quando Dylan a estreou no Newport Folk Festival, em 1965. Mais tarde, foi a primeira música que ele tentou gravar durante as sessões para Highway 61 Revisited – mas Dylan, frustrado com o arranjo, a deixou de lado depois de umas poucas tomadas e gravou “Tombstone Blues” em seu lugar. Então, trabalhou em uma versão mais lenta que permitisse que ele passasse mais tempo nas metáforas vintage de blues dos versos e nas maliciosas partes faladas. O resultado se revelou ao mesmo tempo atemporal e inovador.

62 – Queen Jane Approximately
HIGHWAY 61 REVISITED 1965
Joan Baez certa vez se referiu a Highway 61 Revisited como um “monte de porcaria”. A rainha do folk e ex-namorada de Dylan pode ter feito o comentário com base na caótica sonoridade do álbum; ela pode também ter pensado nesta música, o ato de humilhação de uma mulher alienada por sua beleza e seus privilégios. “Queen Jane” vai do cáustico (“Quando todos os palhaços que você contratou tiverem morrido na batalha ou em vão”) ao carinhoso (“Não vai vir me ver, Rainha Jane?) e a música é uma das mais elegantes presentes em Highway. Seria ela sobre Joan Baez? Talvez. Quando um jornalista perguntou sobre a identidade da Rainha do título, Dylan disparou de volta: “A Rainha Jane é um homem”.

63 – If You See Her, Say Hello
BLOOD ON THE TRACKS 1975
Sem dúvida este deve ser o momento mais doloroso em Blood on the Tracks. Nas outras faixas do disco, Dylan soa rancoroso e filosófico, mas aqui está lidando com uma angústia nova: “Pensar em como ela foi embora naquela noite”, ele canta, “ainda me enche de arrepios”. Como muito do material que acabou entrando no álbum, esta música passou por extensivas revisões – a frase “Se você fizer amor com ela, beije-a pelo garoto” de uma primeira versão foi abrandada para “Se você chegar perto dela, beije-a uma vez por mim”. Mas a versão final ainda corta fundo. Ouvir Dylan admitir “Ou estou ficando muito sensível ou estou ficando mole” tem tanto impacto quanto suas canções mais venenosas.

64 – Abandoned Love
BIOGRAPH 1985
Uma sobra do meio dos anos 70, com a rabeca de Scarlet Rivera esculpindo a melodia através de um country de dois compassos solto e saltitante. Os versos, entretanto, não são tão festivos: eles vão se amarrando cada vez mais firmes enquanto traçam em detalhes uma relação destruída. Gravada em 1975, a música foi descartada do álbum Desire para dar lugar a “Joey”. Mas “Abandoned Love” ressurgiu em Biograph, em que se revelou como uma de suas mais torturadas e desoladoras gravações.

65 – Tough Mama
PLANET WAVES 1974
Um dos improvisos mais lascivos de Dylan foi gravado em novembro de 1973. A The Band engatou em uma levada devastadora de boogie. A lista de personagens pode ser lida como algo saído do Workingman’s Dead do Grateful Dead: há Jack, o caubói, o Lobo Solitário e a gostosa do título, também conhecida como Mamãe Durona, a Beleza Negra, a Doce Deusa e o Anjo Prateado. A poesia lunática é totalmente Dylan. Talvez esse seja o motivo pela qual esta faixa raramente ganhe versões de outros artistas – poucos poderiam superar a interpretação alucinada de Dylan.

66 – Shelter from the Storm
BLOOD ON THE TRACKS 1975
Os distintos climas desta música foram capturados em duas performances radicalmente diferentes. Em Blood on the Tracks, a música é uma reflexão acústica sobre um relacionamento que deu errado, uma recordação querida de uma mulher que, apesar de todos os seus defeitos, deu ao cantor conforto contra as agruras do mundo. No álbum ao vivo Hard Rain, entretanto, a música é um rock devastador, uma denúncia depreciativa de uma amante hipócrita cuja acolhedora oferta de abrigo é dispensada como uma piada cínica. A música tomou forma enquanto seu casamento com Sara estava se desintegrando.

67 – Leopard-Skin Pill-Box Hat
BLONDE ON BLONDE 1966
Poucas canções sobre inveja sexual são tão hilárias quanto este blues saltitante e feroz de 12 compassos ao estilo do R&B de Chicago. A gravação de Blonde on Blonde tem o tom solto de uma faixa descartável gravada em uma tomada só, mas na verdade Dylan precisou de 22 tentativas no decorrer de quatro sessões em seis semanas. Uma versão mais antiga e lenta aparece na trilha de No Direction Home. É uma pequena obra de arte do duplo sentido. E desta vez quem é a vítima da língua venenosa de Dylan? Rumores sugerem que seja Edie Sedgwick, com quem ele havia passado um tempo recentemente.

68 – One Too Many Mornings
THE TIMES THEY ARE A-CHANGIN’ 1964
Uma canção de fim de relacionamento dolorosamente linda – e a rara faixa em que Dylan oferecia um adeus sem jogar a culpa em ninguém. É uma das músicas mais discretas do catálogo de Dylan – apenas o dedilhado gentil do violão, a gaita e o reservado vocal resignado. Provavelmente outra das canções inspiradas por sua relação com Suze Rotolo, esta é como uma versão mais gentil de “Don’t Think Twice, It’s All Right”. Dylan está deixando seu quarto, a rua está à sua frente, quando ele olha para trás com um adeus conciliatório: “Você está certa de seu lado/ Eu estou certo do meu”, canta.

69 – One More Cup of Coffee (Valley Below)
DESIRE 1976
Em 24 de maio de 1975, Dylan estava visitando o pintor David Oppenheim no sul da França e os dois foram a um festival cigano. A música foi inspirada por essa visita e soa como um misterioso tributo a uma mulher com olhos “como duas joias no céu” e um pai rico e poderoso. É cheia de misticismo e se torna ainda mais poderosa pelos vocais peculiares: a voz afiada de Dylan se mistura ao vocal de apoio de anjo assombrado de Emmylou Harris. O verdadeiro toque cigano aqui, entretanto, é o exótico violino executado por Scarlet Rivera.

70 – To Ramona
ANOTHER SIDE OF BOB DYLAN 1964
Por JACKSON BROWNE
Não há uma só palavra sobre o movimento pelos direitos civis nesta música. Mas, para mim, ela é sobre isso de uma maneira tão clara quanto os livros de James Baldwin. Sempre vi Ramona como uma jovem negra em alguma festa nova-iorquina em que não se sente confortável e há Bob Dylan relatando seu contato emocional. Ele é específico quanto ao que é erótico na garota. Eu vejo a linda face negra dessa mulher, seus “lábios rachados interioranos”. Ele a está descrevendo em termos que nos levam além dessa cena. É uma canção imbuída com a luta pela liberdade pessoal e a perpétua armadilha da codependência. Este foi um momento em que as pessoas queriam que um líder e porta-voz mostrasse o caminho. Mas, nesta música, Dylan desmantela esse conceito: “Eu falaria com você para sempre/Mas logo minhas palavras/Elas se transformariam em um círculo sem sentido”. Ele advoga sempre a favor do poder de cada um, de encontrar seu próprio caminho. O problema de qualquer tipo de polêmica é que ela se mostra rígida demais frente ao que a vida realmente é. Essa é a coisa mais significativa no coração do caráter elusivo de Bob Dylan. Ele diz a Ramona: “Você foi ludibriada a pensar/ Que o fim está próximo”. Mas não está. Essas batalhas prosseguirão.”

 

É isso! Festejem, comemorem e façam suas apostas para o ano que vem!

Link da reportagem: http://rollingstone.uol.com.br/edicao/edicao-61/maiores-cancoes-de-bob-dylan?page=8#imagem0

 

 

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CILENE RESENDE

Meu nome é Cilene Resende, 31 anos, sou de Maringá-PR. Ler não se trata de uma simples paixão na minha vida; ler é um dos meus vícios mais prazerosos. Seja bem-vindo ao Meu Vício Literário.